
por Ary Fernandes
A obsessão pela idéia superou os obstáculos, sem saber criou o
maior fenômeno da televisão brasileira.
Eu, quando criança, via os seriados no cinema, devorava gibis e ficava pensando porque não
existia um seriado brasileiro, um personagem genuinamente brasileiro.
Os heróis eram todos norte-americanos, tipo Flash Gordon, Tarzan, Capitão América,
O Sombra, Fantasma, etc.
Aquilo já me incomodava, mas nem imaginava que um dia eu faria um seriado brasileiro.
Foi no ano de 1959, quando eu dirigia comerciais já recém saído dos Estúdios da Maristela,
que a idéia de criar meu personagem começou a tomar forma.
Na história em quadrinho existia um herói que andava de motocicleta, um tipo de cowboy
do asfalto chamado O Vingador.
Eu achava ridículo, um cowboy de motocicleta.
Um dia, andando pela rua, vi um guarda rodoviário passar de motocicleta.
Me informei e descobri que não era um guarda e sim um Inspetor
Rodoviário (aí veio a idéia de criar o Inspetor Carlos).
Começou a vir na minha mente a idéia de um herói brasileiro, um patrulheiro, mas sozinho não ia
ficar bom, então pensei num cachorro, seu companheiro, um cachorro que andaria na moto, uma novidade,
coisa inédita, que eu nunca tinha visto.
Passados alguns dias, a história já começava a fervilhar na minha cabeça
Relatei-a ao Palácios (meu amigo e sócio), que gostou da minha idéia e conjeturamos sobre o assunto.
Lembrei então do Mário Costa, amigo que outrora havia sido proprietário de uma empresa de
transportes, a Estrela do Sul.
Naquela época ele tinha uma loja de autopeças embaixo de nosso escritório.
Fui falar com Mário e, tomando um cafezinho, relatei minha idéia.
Ele ficou empolgado e me disse que conhecia pessoas na Força Pública, tinha
contatos e que poderia ligar e propor uma reunião.
Eu disse: calma, é apenas uma idéia, não temos dinheiro e a coisa acabou ficando assim.
Eu fiquei preocupado, com medo que ele falasse com alguém lá na polícia, eu não estava seguro,
da idéia precisava ser maturada.
No dia seguinte o Mário me procurou e disse que havia falado com seu amigo, Altino Fernandes,
que era Capitão da Força Pública e este já havia feito contato com seu amigo, Flávio Capeletti,
subcomandante da Polícia Rodoviária e que havia adorado a idéia.
Mário me disse que já estava agendada uma reunião com o Capeletti na Rua Riachuelo, onde ficava
a Secretaria de Viação e Obras Públicas e também o escritório da Polícia Rodoviária.
Não me intimidei, mas fui pensando no caminho:
“Como vou sair dessa!.”

Fui até lá conversar com ele e começamos bem, pois descobri que
ele era meu vizinho em Santana.
Expliquei a idéia, do patrulheiro com o cachorro, salvando as
pessoas de bandidos, o cachorro andando na moto, etc., e relatei também o que seria o
piloto da série, toda na minha cabeça,o Diamante gran mogol, uma história
policial que envolvia o roubo de um grande diamante, o maior do mundo.
Ele se dispôs a ajudar no que fosse possível, mas os recursos da Polícia Rodoviária na época eram
precários, haja visto que a frota da rodoviária era composta de alguns jeeps e dois Ford, um 1949 e 1950.
Um pequeno parêntese: tanto o Capeletti quanto o Altino acabaram se tornando meus amigos.
Mais tarde, durante o seriado, Capeletti me confessou que quando eu fui falar com ele, existiam duas hipóteses:
uma, a de eu ser louco e outra, a de eu estar anos à frente de minha época, e que eu seria o responsável
por realizar uma obra que ficaria marcada para sempre no Brasil.
Bem, no mesmo dia relatei o que havia acontecido ao Palácios e ele achou que eu estava louco,
acabou me dando uma bronca.
A impressão que dava é que o Palácios ainda não havia entrado no clima da idéia, não tinha comprado a idéia.
Mas no fundo ele não estava errado, eu estava sonhando com uma coisa muito além da nossa realidade,
das nossas posses.
Na Rua Pedroso, havia um amigo, um judeu, Jacob Mathor, um homem de posses, que tinha um estúdio que
nós já usávamos para fazer comerciais.
Contei a ele a idéia, tudo que havia acontecido com o pessoal da polícia, disse que estava chateado pelo
fato de, de certa forma ter discutido com Palácios, mas aquela idéia não saía da minha cabeça, eu
estava preocupado.
Aquilo estava começando a virar uma obsessão.
Jacob ouviu tudo e ao final me disse:
“Eu colaboro com quatro latas de mil pés de negativo 35 mm, cedo meu carro e meu estúdio para
você usar como precisar”.
E ele tinha um Chrysler, um carro de luxo na época.
Os estúdios se chamavam Santa Mônica, em homenagem à sua filha.
Na verdade, Jacob ficou comovido com minha empolgação.
Voltei a falar com Palácios.
Sugeri ao Palácios que conversássemos com os técnicos da Maristela que ainda estavam
desempregados e propuséssemos uma parceria, que todos pudessem trabalhar graciosamente
para a realização do piloto.

Tínhamos uma câmera Arriflex 35 mm que havíamos comprado quando saímos da Maristela.
Com essa câmera fazíamos os comerciais que davam nosso sustento naquele momento.
Considerando que cada lata de negativo tem doze minutos, eu tinha quarenta e oito minutos de
filmagem, para um episódio de 20 minutos, ou seja, não podia errar muito.
Sai a campo para procurar os técnicos e até meu pai se dispôs a ajudar, depois, durante as filmagens,
ele comprava pão, frios, lingüiças e fazia lanches para a equipe.
O Hélio Menezes, já falecido, era dono de uma agência de figurantes, também veio ajudar.
Os atores eram quase todos amadores, figurantes.
Hélio, que era gaúcho, um dia fez um arroz a carreteiro para a equipe, num fogão improvisado
nas locações.
Quando estávamos no nosso estúdio, pedíamos emprestado pratos e talheres para um bar que
ficava ao lado.
Vieram também o Eliseu Fernandes, fotógrafo, Mazinha (Osvaldo Leonel), eletricista, Luizinho,
montador e amigos da Maristela que já trabalhavam conosco na montagem dos comerciais.
Eu já havia escrito a história e depois fiz um roteiro do primeiro episódio, o piloto, que seria,
definitivamente, O Diamante gran mogol.
Para mim não foi difícil fazer isso, pois eu sempre tive facilidade em escrever.
Conversei com o pessoal da polícia e pedi quatro guardas permanentes para ficarem direto
comigo durante as filmagens.
Precisávamos da orientação deles nas estradas, às vezes nos distraíamos e invadíamos a estrada,
um perigo, esse pessoal da polícia era absolutamente necessário, eles tomavam conta da gente,
eles ficavam desviando o trânsito onde estávamos filmando.
Eram eles: Benedito Lupi, Mistrenel, Almir Castrioto, Álvaro Motta (o único vivo, encontrei com
ele recentemente).
Esses quatro começaram comigo, me ajudaram muito e eu gostava de todos, mas confesso que Lupi
era o meu preferido, um grande cara, bebia demais, morreu cedo, mas era um grande cara, deixou saudades.
A escolha do cão para viver o “Lobo”
Estava na hora de eu arranjar o cachorro, eu sabia que teria que ser um cachorro especial, não poderia
ser qualquer um, não para aquilo que eu imaginava.
Eu tinha um amigo chamado Odoacro Gonçalves que era chefe do controle da Guarda Civil, ele me
arranjava os carros, ou melhor, as viaturas que eu precisava.
Ele me disse que tinha um controlador que estava ali comissionado, era soldado da Força Pública
e se chamava Luiz Afonso, morava em Suzano, e tinha um cachorro muito bonito.
Pediu que eu conversasse com ele.
Fui procurá-lo em Suzano. Levamos uma perua e uma motocicleta Harley Davidson pilotada
por um guarda rodoviário.
Conheci o cachorro, que se chamava King.
Foi amor à primeira vista, adorei o cachorro e acho que ele também gostou de mim,
mesmo porque eu sempre gostei de cachorros, sempre tive cão em casa, tinha jeito para
lidar com eles.
O nome dele não me agradou, um seriado com um herói genuinamente brasileiro não poderia
ter um cachorro chamado King, então mudei seu nome para Lobo, pois era universal, tinha
em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil temos o lobo-guará.
Perguntei o que o cachorro fazia, Luiz respondeu que ele pulava e sentava e me mostrou, pedindo
ao cão que fizesse isso.
Perguntei se ele andava na moto, Luiz disse que isso ele nunca havia feito, então conduzi o cachorro
até a moto e ele subiu sem que precisássemos mandar.

Lobo era um cão pequeno e cabia na moto, se fosse um pastor
normal não caberia, até nisso demos sorte.
Comecei a gostar e a achar que havia encontrado o que procurava.
Em seguida fizemos o teste com a moto em movimento, pedi ao
guarda que saísse bem devagare ele também foi bem.
Eu fui com o carro atrás filmando o teste.
Esse sim seria um material raro se não tivesse se perdido:
o teste do Lobo para a série O Vigilante Rodoviário.
Bem, Lobo estava aprovado e Luiz Afonso concordou na hora em cedê-lo.
Interessante lembrar que não fiz teste com mais nenhum cachorro, Lobo foi o primeiro e único.
O ator para o personagem
O Carlinhos, que já era nosso conhecido da Maristela, estava recém-casado, e também desempregado.
Convidamos então o Carlinhos para fazer a produção do piloto. Mas ainda faltava o principal,
o ator que faria o papel do patrulheiro.
Eu não queria um ator profissional.
Iniciamos os testes com vários atores e até policiais, nos estúdios emprestados de Jacob Mathor.
Os candidatos vestiam a farda, mas nenhum me agradava, não me convencia.
Numa noite, em casa, comentei com Ignez, minha esposa, sobre o que estava acontecendo e
ela sugeriu fazer um teste com Carlinhos.
Na hora achei um absurdo, aquilo não passava pela minha cabeça.
Eu via o Carlinhos como homem de produção, não como ator.
No dia seguinte reiniciei os
testes, também sem sucesso.
Ai, sentei numa banqueta e disse ao Carlinhos que estava quase desistindo,
pois não encontrava o perfil que procurava.
Nessa hora lembrei do que Ignez havia me dito e disse ao Carlinhos
que vestisse a farda, ele estranhou, perguntou:
Por que?, eu disse:
Vista, quero apenas tirar uma dúvida.
Ele concordou, mas a bota era pequena, número 42, e entrou muito apertada no seu pé,
que era número 44.
Quando ele colocou a farda, completa, com quepe
e blusão, eu disse:
Já temos o Patrulheiro Rodoviário.
Ele perguntou:
Quem é?, eu disse:
Você!
Em suma, Ignez, minha esposa foi a responsável pela escolha do Carlinhos para ser o
ator da série.
Naquele momento eu consegui ver o que a Ignez já havia visto muito antes.
Ignez viu Carlinhos fardado em seu pensamento.
O Piloto: Diamante gran mogol – 1959
As Filmagens - Os bastidores do sucesso
Escrevi o episódio Diamante gran mogol já no início
da idéia, pois achava que deveria ter uma história para mostrar.
O capitão Flávio Capeletti saiu comigo para procurar as locações para as filmagens, tinha
que ser tudo locação, pois não tínhamos dinheiro para montar cenários.
Resolvemos então iniciar as filmagens na Via Anchieta, pois, além de ser um lugar muito bonito,
tinha tudo a ver com a série.
Para fazer as primeiras cenas do Gran Mogol, estávamos a
postos para filmar às oito horas da manhã, na entrada do Caminho do Mar, hoje Estrada Velha de
Santos, no Riacho Grande, quando, para nossa surpresa, baixou uma bruma que não enxergávamos
nada. Ficamos esperando até as dez e meia e fizemos algumas cenas.
Aproveitei e fiz todos os exteriores em dois dias.
Eu tinha cenas para fazer em Santos, mas, como lá não tinha bruma, então dei prioridade
em filmar ali.
Na série inteira quase não tem Via Anchieta, justamente por causa da bruma, problema que
perdura até hoje. Mesmo assim, encontramos o local ideal que procurávamos e lá fizemos a
cabana dos bandidos.
O ator que fazia o chefe dos bandidos chamava-se Cacildo. Colocamos uma borracha especial
de maquiagem no seu rosto imitando uma cicatriz, ficou perfeito.
A primeira cena que fizemos foi uma estradinha que dava para o esconderijo dos bandidos.
Por causa da bruma, depois acabamos mudando as locações, pois não havia
condições de filmagem.
Como o elenco era todo amador, figurantes, soldados da polícia, etc., tive muitos problemas nas
filmagens, o pessoal tinha dificuldade em decorar os textos.
A segunda cena foi em Santos. Lá conseguimos autorização para filmar no porto,
e num navio atracado, pois a história assim exigia.
Todos no Porto de Santos foram muito amáveis conosco e colaboraram
muito nas filmagens.
No navio fizemos a cena em que chegaria o chefe dos bandidos.
Até então, as fardas utilizadas nas filmagens, eram fornecidas pela polícia,
mas, depois,quando fizemos a série, a farda do Carlinhos eu mandei fazer especialmente
para o filme,aliás fizemos várias, pois haviam cenas de luta e era comum rasgar alguma.
A farda, blusão, quepes, botas, tudo que o Carlinhos usava foi emprestado pelo Jaime,
um guarda da polícia que tinha o mesmo porte físico dele e que o pessoal da polícia chamava de
Turco Louco.
Carlinhos tem 1,83 m de altura e não era fácil encontrar alguém com esse porte físico.
Foram usados carros da polícia, jeeps e motos. Interessante que as motos da polícia não
tinham rádio, então fizemos uma adaptação na moto para colocar um rádio transmissor da
Byington, um HT usado na guerra, que não funcionava.
Na série, foi usado equipamento Control.
O comandante tinha um Ford 1950 e o subcomandante usava um Ford 1949.
Depois esses carros acabaram sendo utilizados, mas não no piloto.
Filmei o piloto em duas semanas.
A imprensa noticiou as filmagens, mas sem alarde; surgiram até comentários jocosos tipo:
Será que o patrulheiro terá calça preta e camisas listradas?,
numa alusão ao malandro brasileiro.
Quer dizer, a própria mídia não acreditava naquilo que estávamos fazendo e, ao invés de
nos incentivar, nos escrachava.
As dificuldades - Os bastidores do sucesso
O filme foi revelado no Laboratório Bandeirantes.
Nós tínhamos uma moviola vertical, que era usada para fazer os comerciais, Luizinho fez
então a primeira montagem, mas ainda não tinha o corte final, nem som, pois não tínhamos
dinheiro para sonorizar o filme e o projeto ficou parado vários meses.
Carlinhos tinha um amigo na TV Record, Rogélio Rodrigues, tesoureiro do Dr. Paulo Machado
de Carvalho que intermediou e conseguiu uma audiência com Dr. Paulo, que aceitou ver o
copião sem som do filme.
Fizemos uma redução de 35 mm para 16 mm.
No dia, estavam presentes, além de Dr. Paulo, seus filhos Paulinho, Alfredo e Tuta e o radialista
Hélio Ansaldo.
Eles adoraram o material e imediatamente quiseram fechar negócio, mas a exibição seria restrita
a São Paulo e Rio de Janeiro, e nós queríamos que fosse para o Brasil todo, pois sendo exibido
somente no eixo Rio-SP, jamais cobriria seus custos de produção.
Eles propuseram então que fechássemos contrato e depois fôssemos vendendo a série para outros
Estados, mas não tínhamos estrutura para isso, viagens, hospedagens, etc., então o negócio não
deu certo com a Record, o que deixou a família Machado de Carvalho muito chateada com a gente.
Mais tarde, eles ficaram numa “saia justa” ao me conceder o
Troféu Roquette Pinto, que era da Record.
Imagino que não me deram esse prêmio com muito prazer na época. Mas isso acabou sendo, de certa
forma, um alento para nós, pois percebemos que estávamos no caminho certo e que poderia haver um
interesse pelo nosso produto.
Agora era preciso sonorizar o filme.
Mário Sidow
era um técnico de som, antigo conhecido, que tinha
um estúdio de som na Rua Bahia.
Ele mesmo montou os equipamentos de revelação de som, fez as pistas para mixagem, fazia as
gravações. Ele morava em cima e na parte de baixo, nos porões, fez seu estúdio. Era tudo meio precário,
o chão era de tacos, que se desatacavam , então embaixo escutávamos o barulho de pessoas andando,
eu dizia ao Mário brincando que não existia no Brasil estúdio mais destacado
que o dele.
Ele era um cara muito inteligente. Todo mundo gravava em área, ele gravava em densidade,
a qualidade era muito melhor, o som era espetacular, separava as pistas. Ele sonorizava documentários,
comerciais. Ele fazia tudo sozinho.
Procurei então o Mário, expliquei a situação e ele me autorizou a fazer a gravação no seu estúdio
para pagamento posterior. Luizinho preparou os anéis para fazer as dublagens. Como os atores
eram todos amadores, precisávamos de bons dubladores para gravar. Foram escolhidos os atores
para fazer a dublagem.
Para fazer a voz do Carlinhos escolhemos um ator da Rádio São Paulo. A dublagem foi dirigida
por Luizinho, eu não participei. Curioso é que, em 1970, quando fizemos o filme
Até o último mercenário, Carlinhos foi dublado por Carlos Campanile.
A voz era perfeita, aquela era a voz certa para o Carlinhos, inclusive melhor que a que foi usada
para o Vigilante.
Bem, esses atores vieram de graça, não cobraram cachê. Mas todos que colaboraram, depois
com a efetivação da série, foram chamados e assinaram contrato conosco.
De certa forma, retribuímos o favor, embora alguns estivessem envolvidos em outros
projetos e outros foram substituídos, como o fotógrafo Eliseu Fernandes, que fez o piloto, mas
cedeu lugar para Osvaldo de Oliveira.
Terminadas as dublagens, sai pelas ruas para gravar os ruídos de carros, motos, chuva, mato, etc., e
com isso fizemos e sincronizamos os ruídos de sala.
Toda a sonorização musical (músicas incidentais) foi feita por Paulo Bergamasco.
Tudo isso demorou quase dois anos, o filme ficou pronto no fim de 1960.
Contrato com a Nestlé - 1961
Resolvemos então procurar as empresas de publicidade que conhecíamos.
As séries que faziam sucesso na época eram Lanceiros de bengala,
Menino do circo, Rintintin, etc., mas não existia nenhuma série brasileira.
Toda nossa esperança se baseava nesse fato, além de estarmos oferecendo um bom produto.
A idéia era exibir o filme nas grandes agências, de preferência àquelas que tivessem clientes
nacionais, como a Norton, a Thompson e McCann Erickson, Stander Propaganda, etc.
A Norton foi a primeira a marcar uma reunião para as 9 horas e a
Thompson marcou no mesmo dia às 10h30.
Fizemos uma cópia em 16 mm e, de posse de um projetor italiano super pesado marca Cine Mecânica,
seguimos para a Norton.
Para fazer a apresentação, usei o meu terno de casamento, feito de tecido tropical Maracanã, um
luxo para a época. Com o passar do tempo, o tecido ficava lustroso, além de já estar cerzido no traseiro
por minha esposa.
O filme ainda não tinha a abertura nem o tema musical. Era apenas a história.
Na Norton, haviam sido convocados todos os contatos, e eles estavam curiosos para ver o filme.
A exibição foi feita numa sala de reuniões da empresa. Iniciamos a projeção e ficamos observando
a reação dos presentes.
Conforme a cena, eu aumentava o som do projetor para dar mais ênfase.
Ao término, todos aplaudiram
de pé. Ninguém esperava.
O publicitário Carlito Maia era o encarregado
da conta da Nestlé, na parte da Norton, pois a
conta da Nestlé era
dividida entre a Norton e a McCann Erickson.
Apresentamos as planilhas com o custo da série ao Carlito,
já com a previsão de 39 episódios que, com
13 que seriam reprisados, totalizava 52, ou 52 semanas, ou um ano de exibição. Esse era o projeto.
Carlito nos pediu para não fechar com ninguém que ele iria falar com o pessoal da Nestlé.
Eu disse:
Impossível, estou indo agora para a Thompson exibir o filme. Quem chegar primeiro leva.
Fomos para a Thompson, e, assim como na Norton, montamos o equipamento na sala de reuniões e começamos
a projetar o filme.
Durante a projeção, me liga o Carlito Maia, dizendo:
Não fecha com ninguém pois a série já está vendida para a Nestlé.
Bem, terminamos a projeção e o filme também foi aplaudido no final.
O Sr. Lauro de Barros Siciliano, que era o diretor da Thompson e membro de uma comissão
pertencente ao Departamento de Estradas Estaduais de Rodagem disse, todo entusiasmado,
que a série seria da Ford. Eu lhe disse que o negócio já estava fechado com a Nestlé, para
fúria daquele senhor.
Ele disse que não podíamos fazer isso, era antiético, eu expliquei que o telefonema viera
durante a projeção.
Retornamos com todo o equipamento para nosso escritório na Rua Pedroso e à tarde fomos
para a Norton ultimar os detalhes da transação.
Acertamos um adiantamento de 20% para início da produção e depois à medida que entregávamos
os episódios, íamos recebendo as parcelas.
Dias depois assinamos contrato na sede da Nestlé, na Rua da Consolação.
Para produzir a série, eu e o Palácios criamos uma empresa, a IBF, Indústria Brasileira de Filmes.
O dinheiro era repassado à Norton, que repassava à IBF, não recebíamos da Nestlé diretamente.
O diretor-comercial da Nestlé era o Sr. Gilbert Valterio, um suíço que gostava muito do Brasil,
tanto que casou-se com uma brasileira.
Valterio foi um grande aliado, um homem que tinha visão, ele vislumbrou antecipadamente no

Vigilante, o sucesso que viria a ser.
Ele comprou a idéia desde o início, quando
Carlito Maia ofereceu-lhe o negócio.
Bem, após receber o sinal, a primeira coisa que fizemos, logicamente, foi depositar o cheque no
banco e a segunda foi comprar dois ternos novos para nós. Esse terno eu guardo até hoje.
O Início das filmagens da série - 1961
Saímos para contratar a equipe, foi uma alegria geral.
A Norton Propaganda e a Nestlé fecharam contrato com a TV Tupi para exibição da série.
A exibição seria em rede nacional.
Os episódios prontos eram entregues na Norton. A mídia dava generosos espaços para a série.
Um enorme painel com o Vigilante e o Lobo foi construído pela
Nestlé e colocado no início da Via Anchieta, mais ou menos no quilômetro dez, chamando a série.
Mudamos nosso escritório para a Rua dos Lavapés, num enorme armazém, mas não para fazer
cenários, que não era o plano do filme, mas para acomodar melhor a equipe.
Com o tenente Ary Aps fomos até Jundiaí procurar locações, chegamos a construir dois cenários na
sede da Polícia, que foram pouco utilizados, pois não era interessante, já que em sítios e chácaras
conseguíamos os cenários já prontos.
Resolvemos que o segundo episódio seria mais perto de São Paulo, para facilitar as coisas.
Eu escrevi o roteiro de A pedreira, um episódio que se passava
todo em um lugar só, no bairro do Tremembé, zona norte de capital, onde havia na época uma pedreira
muito grande.
O episódio foi filmado em sete dias. A menina que fazia o papel era filha de Luiz Afonso, dono do Lobo.
Havia uma cena de explosão de dinamites e eu sabia que se o tempo estivesse chuvoso, ameaçando raios,
o perigo de explodir seria muito grande.
Na pedreira, havia um especialista em explosões que era chamado de cabo de fogo,
única pessoa autorizada a lidar com a dinamite, não poderia haver riscos.
Tinha uma caçamba de ferro onde foi improvisado um visor para poder chegar o mais próximo possível
da explosão. Na hora da explosão, mesmo com toda a segurança, ficamos apreensivos, com muito medo
e ensurdecidos com o barulho.
Com o patrocínio da Nestlé, começamos a contratar atores profissionais, alguns já consagrados e
outros em começo de carreira, mas que depois fizeram muito sucesso.
Assim, chamamos Juca Chaves,
Etty Fraser, Stênio Garcia, Rosamaria Murtinho,
Elísio de Albuquerque,Luiz Guilherme, Geraldo Del Rey, Milton Ribeiro,
Fúlvio Stefanini, Lola Brah, Ary Toledo, Amândio Silva Filho,
Mário Alimari, Sérgio Hingst, Ary Fontoura, Tony Campello, Lucy Meirelles
entre tantos outros.
O comandante era interpretado por Washington Coimbra, ele não era nem guarda rodoviário nem ator,
ele era chefe de pessoal da Polícia Rodoviária, era um funcionário de gabinete. Acabei usando-o no piloto
e ele ficou para a série toda, atuando em quase todos os episódios.
Trabalhei bem com todos eles.
Fizemos três episódios em outros Estados: Rio de Janeiro: O sósia;
Paraná: Aventura em Vila Velha; e Minas Gerais:
Aventura em Ouro Preto.
Como a série foi exibida em todo o Brasil, os episódios chamavam muito a atenção do público daqueles Estados.
Usávamos guardas rodoviários mesmo e atores com farda, a gente mesclava.
No episódio do Paraná, Ary Fontoura fez sua estréia no cinema.
O governador era o Ney Braga, que nos deu todo o apoio e se tornou muito meu amigo.

No Rio de Janeiro filmamos sem apoio, mas fizemos o episódio.
Em Minas Gerais, recebemos apoio do governador Magalhães Pinto.
Filmamos em Ouro Preto, Congonhas do Campo e Belo Horizonte.
Quem fez os contatos tanto no Paraná quanto em Minas Gerais foi a atriz Lola Brah, que era amiga dos
governadores.
Eu já conhecia a Lola Brah dos tempos da Maristela, ela sempre foi muito solícita, ajudava as pessoas,
era realmente muito especial.
Conheci também sua irmã, Sra. Valha, e até sua mãe.
Em Ouro Preto visitei a Faculdade de Mineralogia, fiquei fascinado com as pedras, os professores me
explicavam a origem de cada uma.
Filmei no Museu onde ficavam as obras do Aleijadinho, e os Profetas em Congonhas do Campo.
No Museu, tivemos um pequeno problema com a esposa do responsável local, que não queria nos
deixar trabalhar, criou uma série de embaraços.
O diretor alegou que uma equipe francesa havia filmado no local e que obras do Aleijadinho haviam
sumido, mas o que eu tinha a ver com isso, eu só queria fazer minhas cenas e ir embora.
Então eu disse a ela que à noite eu ia dar uma entrevista para a TV Belo Horizonte, e que citaria o fato,
ela então, imediatamente mudou a conversa, pois já tínhamos autorização até do governador para
filmar no local.
Houve um episódio, chamado A história do Lobo, que foi feito
para justificar a presença do cachorro na polícia, pois na época não era permitido.
No episódio, havia um cozinheiro negro chamado J. França que acaba roubando
todas as cenas em que participa. Neste episódio, ele alimentava o Lobo escondido, com a
conivência do Inspetor Carlos.
Curiosidade:
J. França era guarda rodoviário e depois de sua participação nesse filme, torna-se ator
de teatro; hoje é falecido.
Esse episódio, escrito por mim, fez muito sucesso e é o meu preferido, talvez pelo amor que
cultivo até hoje pelo Lobo.
Eu filmava uma cena de ação, uma luta, um golpe, com 22 fotogramas.
Depois, na montagem, retornava aos 24 quadros e conseguia um efeito perfeito.
Esse pequeno truque eu ensinei a várias pessoas principalmente ligadas à propaganda.
Nunca me importei com isso, o que eu sei eu ensino aos outros.
O episódio Pombo-correio foi feito na estrada entre Jundiaí e Itu.
O ator era Mário Alimari, que fazia o Pé-com-pano na televisão
naquela época.
Com o sucesso da série, as pessoas nos ofereciam locações, sítios, fazendas, chácaras, etc.;
todos queriam, de alguma forma, participar.
A série, com o tempo, passou a ter um caráter institucional, pois além de transmitir a mensagem
que o bem sempre vence o mal, procurávamos também ensinar alguma coisa, assim, por exemplo,
no episódio Mapa histórico mostramos como eram preparados
os antídotos para picada de cobra no Butantã.
Já em Orquídea glacial mostramos como funcionava o Jardim Botânico
de São Paulo, em Aventura em Ouro Preto, a importância das obras
do Aleijadinho, e assim por diante.
Quando a série entrou no ar pela TV Tupi, nós tínhamos apenas 12 episódios prontos, quando
o combinado seria que tivéssemos pelo menos 22 ou 23; o fato é que a Nestlé patrocinava na
época um seriado chamado Menino do circo, que dava boa audiência.
Mas em Niterói, num domingo, um circo pega fogo e morrem várias pessoas, entre elas muitas crianças.
A Nestlé resolve então, tirar o Menino do circo do ar e entra
com o Patrulheiro (adiante explicarei essa história), ou seja,
a partir daí, a série entra no ar imediatamente após sua produção, um fato inédito também,
isso foi uma loucura para nós, que não podíamos errar, pois cada episódio levava pelo menos
quinze dias de filmagem.
Para entrar no ar, já tínhamos a vinheta e a música tema, que foi composta por mim.
Houve uma outra música, de outro compositor, que foi usada também na série, mas no meio,
como música incidental (está música pode ser ouvida no episódio “O Recruta”, quando os
recrutas estão em treinamento).
Tanto a minha composição que é a famosa canção tema de abertura da série a qual intitulei
de “O Vigilante Rodoviário” quanto a outra, foram gravadas pelo grupo musical Titulares do Ritmo.
Para a série, adquirimos outra câmera Arriflex de reserva, mas normalmente usávamos somente uma,
aquela antiga que já tínhamos.
Simca
O carro que virou moda por causa da série
Depois do piloto da série, alugamos um Simca para ajudar na produção e nas filmagens do episódio
Ladrões de automóveis, e gostamos do carro; ainda era comum, não estava pintado.
Surgiu então a idéia de pedir uns carros na fábrica para a série. Cláudio Petraglia, que era sobrinho
do Victor Costa, foi diretor da TV Paulista, era muito influente, conhecia muita gente e foi um grande
amigo que muito nos ajudou.
Cláudio conhecia Jack Pasteur, diretor-geral da Simca, cuja matriz era francesa e a filial do Brasil
ficava na Via Anchieta, em frente à Volkswagen. A Simca estava em baixa no mercado, poucas vendas,
pátios lotados, aquele era o momento.
Disse ao Cláudio para pedir cinco carros, eles queriam liberar três, mas acabaram cedendo, então,
dois foram pintados e transformados na viatura do Vigilante e três ficaram para serem usados
normalmente na produção e filmagens também.
Eu ficava com um e o Palácios com outro.
Dei a a idéia de como eu queria que fosse o logo do Vigilante e chamei o Carlos Marti
para desenvolver.
O logo não tinha nada a ver com a polícia. Muita gente pensa até hoje que aquele
símbolo era da Polícia Rodoviária.
Colocamos a sirene e o transmissor de rádio. Conseguimos o equipamento na empresa Control, em
que os donos eram dois irmãos, Eribaldo e Marcos Vilares.
Os carros cedidos não eram do ano, um era 1959 e os outros 1960, quer dizer, eram seminovos,
eram carros da frota da empresa. O modelo 1959 ainda era quase todo francês.
O Simca era um carro bonito, fotografava bem, tinha oito cilindros, mas não era muito bom de mecânica,
era fraco de embreagem e na parte elétrica, o câmbio era na mão, quando se forçava um pouco a
embreagem patinava.
Numa ocasião, fomos filmar em Santana do Parnaíba, em dia de romaria, estávamos com um dos
Simca pintados e acabou a embreagem, chegamos em São Paulo empurrando.
Quem fazia a revisão dos Simca para nós era a Chambord Auto, na Al. Dino Bueno.
Perguntei a um dos donos se não teria um jeito de melhorar a embreagem, pois sempre
dava problema. Ele disse que poderia dar um jeito, mas que a fábrica não poderia saber,
pois eles eram autorizados, etc. Ele fez o serviço em todos os carros e nunca mais tivemos problemas.
Em algumas cenas do Vigilante amarrávamos a câmera no Simca,
pois ainda não existia o Super Grip, assim como não existiam dublês; o Carlinhos fazia ele mesmo
as cenas de perigo.
O diretor-comercial da Simca chamava-se René J. Roig.
Acabei fazendo muita amizade com ele, filmamos lá dentro o episódio O invento.
O filme alertava para o fato de estar havendo muitos roubos de carros, fazendo com que a Simca
desenvolvesse um supermotor para a polícia.
Um engenheiro da Simca, interpretado pelo ator Geraldo Del’Rey, era chantageado, os
bandidos queriam os projetos do supermotor.
Os testes do supermotor foram feitos em Interlagos. Tanto Pasteur como Roig estavam muito
satisfeitos com o resultado da série, que acabou alavancando as vendas, dando uma sobrevida à
montadora francesa no Brasil.
Era o merchandising funcionando já na época.
Um dia, após uma reunião na Simca, Roig me prometera que após as filmagens presentearia
eu e o Palácios com dois Simcas, não os que estavam sendo usados na série, e sim dois carros novos,
zero quilômetro.
Na metade da série, lá pelo capítulo vinte e cinco, Roig teve um desentendimento com um representante
do Paraná, que teve sua autorização de revenda cassada e foi assassinado por essa pessoa durante uma
reunião, dentro da fábrica, na sua sala.
Fiquei muito chocado com esse fato. Meu relacionamento com a Simca nunca mais
foi o mesmo, a pessoa que entrou no seu lugar não pensava da mesma forma.
Fui conversar com ele para renovar o contrato para uma eventual continuação, mas a pessoa que
assumiu queria renovar nos mesmos moldes do anterior, porém e agora eu queria que os carros
ficassem conosco, uma permuta, nada mais justo, afinal, estávamos fazendo a propaganda do carro,
o que ele não concordou.
Ele pegou as vendas lá em cima, e não deu o devido valor ao nosso trabalho. Eu fiquei nervoso com
ele, ameacei fechar negócio com a Willys, que tinha o Aero-Willys, forte concorrente da Simca, mas
depois também não renovamos com a Nestlé e as coisas acabaram não acontecendo.
Bem, os Simca que ganharíamos de presente ficaram na saudade, somente na palavra do amigo Roig,
que não estava mais ali para nos defender.
Com o final da série, devolvemos os carros. Um dos carros pintados foi comprado por um amigo meu,
Joaquim, dono de uma produtora que foi incendiada, no bairro de Indianópolis; o outro, nunca mais vi.
Ele começou a rodar com o carro pintado, ai eu soube e avisei a Polícia Rodoviária, que imediatamente
o avisou, e ele recolheu o carro.
Dos cinco, foi o único que soube o paradeiro depois da série.
Lobo – Um grande amigo
O Lobo aprendeu muita coisa durante as filmagens.
Quem lidava com o Lobo era eu, ele ia para a minha casa, eu ensinava a ele conforme
ia precisando.
Havia uma cena em que o Lobo tinha que saltar de uma plataforma, coisa difícil, que necessitava de
muito treino, mas Lobo fazia tudo com muita facilidade. Ele subiu e saltou sem problemas.
O treinador de cães da Polícia ficava abismado com a inteligência do cão.
No começo da série, Lobo estava em cima da moto e queimou a pata no escapamento, ele ficou arisco
e não queria mais subir na moto, então, daí em diante eram raras as cenas do Lobo na moto, ele ficava
mais no Simca. Eu também evitava de colocá-lo na moto, pois existia um risco muito grande.
Além de gostarmos muito do cachorro, se acontecesse algo com ele jamais arranjaríamos outro igual.
Uma curiosidade que poucos sabem: eu consegui umas peles de raposa e mandei confeccionar um
boneco na Fábrica Leonella, então em muitas cenas eu usava o boneco que imitava ocachorro.
Durante a série, Lobo fez uma pequena cirurgia para retirar um dreno embaixo da língua.
A cirurgia foi realizada na Faculdade de Medicina e Veterinária.
Arranjamos um outro cachorro para substituir o Lobo, um pastor maior, estabanado,
que chamávamos Lobo Louco, não fazia nada, na da a ver com o nosso Lobo, ele não aprendia nada,
acabei dando esse cachorro para o Lupi.
Curiosamente , o Lobo não era um cachorro grande , ele era pequeno.
Lobo viajou conosco por todo o Brasil fazendo exibições.
A condição era que Lobo ficasse comigo no quarto nos hotéis em que ficássemos hospedados.
Normalmente autorizavam.
Quando viajávamos de avião, Lobo ia num compartimento especial de carga.
Numa ocasião, fui pilotando para Belo Horizonte, ele foi comigo na cabina. Ele encostava a
cabeça na janela e ficava olhando para baixo, curioso; vai saber o que se passava pela sua cabeça.
Com o fim da série, o Lobo ficou comigo, foi para minha casa, ele não se adaptava mais ao
Luiz Afonso. Ele estava acostumado comigo, era como se agora eu fosse seu dono.
O Lobo me acompanhava, aonde eu ia, eu o levava, fazíamos apresentações constantemente.
Ele realmente era um cachorro
especial.
Sempre tive muitos cachorros, mas Lobo era diferente, ele tinha o QI 10% maior que o mais
esperto que eu tivera.
Lobo era tratado como um membro da família, servíamos a ele o que tínhamos de melhor, mas
ele gostava em especial de coração de boi picado misturado com arroz.
Nessa época não se vendia rações para cães, então nós mesmos preparávamos a comida do Lobo.
Por volta de 1966, Luiz Afonso veio buscá-lo e o levou para sua casa na Vila Maria.
Foi um trauma para todos nós, era como se tivéssemos perdido um ente querido.
Mas logo depois, talvez uma semana, ele voltou para minha casa, sozinho, por incrível que pareça.
Meu pai estava numa travessa da Rua Voluntários da Pátria e viu um cachorro vindo, parecido com
o Lobo; era mesmo o Lobo. Meu pai chamou e ele respondeu. Meu pai então o colocou num carro
e o trouxe para casa, para alegria geral, não acreditávamos no que estava acontecendo.
Três dias depois Luiz Afonso veio buscá-lo novamente. Quando terminou a série eu quis comprar
o Lobo e ofereci por ele 200 mil cruzeiros, um dinheirão para a época, mas ele não quis vender.
Depois, em 1966, ofereci novamente a mesma quantia, sendo que o cachorro estava mais velho,
a série já tinha acabado, mas mesmo assim ele não quis vender.
Não sei até hoje porque ele veio buscar o cachorro, quatro anos depois.
Mas o fato é que ele levou o Lobo pela segunda vez e eu nunca mais o vi.
Fiquei sabendo que ele fugiu uma terceira vez e, tentando achar minha casa, foi atropelado, tendo sido
achado num lixão na Vila Maria. Devia ter uns 12 anos, poderia ter vivido muito mais.
Essa é a parte triste da história do Vigilante, parte que não
gosto de falar, fico emocionado até hoje quando falo desse assunto.
O Lobo marcou demais a minha vida e de toda a minha família.
O sucesso na TV – 1962
No dia que o Vigilante foi ao ar, no dia 03 de janeiro de 1962,
numa quarta-feira, sentimos uma sensação de alívio, mas apreensão também,
pois não sabíamos se faria sucesso ou não.
A audiência na época demorava dias para ser medida, depois de uma semana, ficamos sabendo que
o primeiro episódio dera 33 pontos de audiência.
Aí comemoramos muito.
Já no segundo episódio, a audiência subiu para 55 pontos, a série estourou mesmo, ninguém esperava tanto.
Passava na quarta em São Paulo e na quinta no Rio de Janeiro, onde o sucesso foi maior ainda, com um
ou dois pontos acima de São Paulo.
Na época, o universo total de televisores era de 70%, pois 30% seriam aparelhos desligados, etc.; então,
os 55% poderiam, na verdade, significar 80%.
Com a série, o Brasil tornou-se o quarto país no mundo a produzir séries para televisão, numa época
em que somente o Japão, Inglaterra e os Estados Unidos produziam programas neste formato.
O sucesso da série se espalhou por todo o Brasil, todas as capitais, Vigilante
virou uma febre nacional,
com
bonequinhos e o gibi do
Vigilante, editadopela Nestlé e miniaturas do Simca, feitos
pela própria fábrica.
Os brindes eram distribuídos, sorteados, mas a quantidade era pequena, todos queriam guardar de lembrança.
Fizemos muitas cenas em Jundiaí e, até o pedágio, o tempo estava fechado, depois abria, exatamente no
quilômetro 37 da Rodovia Anhanguera.
Depois descobrimos que, nessa altura, passava o Trópico de Capricórnio, e por incrível que possa
parecer, depois desse trecho começava a melhorar o tempo. Às vezes, saíamos de São Paulo com
garoa, após o 37 tinha sol. Isso também acontecia na Rodovia Fernão Dias, depois da Serra, já quase chegando
em Mairiporã, o tempo abria e para trás ficava fechado. Eu sabia que esses dois
lugares eram uma beleza para filmar.
Para facilitar nosso trabalho, compramos um ônibus GMC, ano 1946, ainda a gasolina, e nele
adaptamos a parte de trás para levar os equipamentos e a parte da frente para levar membros
da equipe, atores, etc.
Para dirigí-lo, contratamos Nelson, um rapaz que ficava sempre no estacionamento perto dos estúdios.
De vez em quando eu mesmo dirigia o ônibus. O Nelson levava o Simca e eu ia dirigindo o ônibus.
Na lataria pintamos o nome da produtora, IBF.
O ônibus ia e voltava todos os dias, não importa onde fossem as filmagens, me refiro dentro do Estado de
São Paulo.
Terminada a série, vendemos o ônibus.
Como não existia videoteipe, então fazíamos quatro cópias em 16 mm de cada episódio, duas ficavam em
São Paulo e duas seguiam para o Rio de Janeiro, e em seguida iam subindo para outros Estados.
Tuca e os garotos do Vigilante
Tuca, Fominha, Gasolina e Arlindinho eram as crianças que faziam sucesso no Vigilante.
Viraram mania nacional e se tornaram pequenos astros. Mas, a bem da verdade, eram filhos de conhecidos nossos.
Mário Alimari, o Pé-com-pano, que fez o episódio Pombo-correio, conhecia um senhor chamado Maninho, que
tinha um auto elétrico no bairro do Itaim, inclusive nesse episódio ele faz o papel de um dos bandidos.
O Velho Mathias era ator figurante na TV Tupi.
Maninho era pai do Tuca e do Wilson (o mais velho).
Mário levou o Wilson para fazer Bola de Meia.
Tuca foi junto.
Ele deveria ter uns cinco anos e perguntou:
E eu?
Eu perguntei:
Você quer trabalhar no filme também?, ele respondeu:
Sim, quero!
Achei o garoto muito esperto e fiz um teste com ele, dando-lhe uma fala com o Vigilante.
Ele fez com tanta desenvoltura e naturalidade que reescrevi o episódio Bola de Meia
para poder encaixar o Tuca.
Seu irmão acabou sendo seu coadjuvante. Tuca fez tanto sucesso que, depois, fiz um episódio só pra
ele chamado A aventura do Tuca.
Seu nome era Reginaldo Vieira.
Já Gasolina era filho do meu tintureiro e Fominha, que hoje é maestro, tinha sua família toda de circo.
Arlindinho era filho de Arlindo, um grande amigo meu.
Luiz Guilherme fez Zuni, o potrinho. Era um garotinho e atuou ao lado
de Fúlvio Stefanini, ainda muito jovem também. Luiz Guilherme hoje é ator consagrado
de cinema, teatro e televisão.
De todos, Tuca foi o que foi mais longe como ator, chegou a ter um programa na TV Excelsior, Canal 9
de São Paulo, chamado As aventuras de Eduardinho.
Depois, já adolescente, fez alguns filmes comigo no início dos anos 70, mas acabou indo por caminhos errados.
Eu dava muito conselho pra ele, era como se fosse meu filho. Tuca tinha um talento
nato, dificilmente hoje eu encontraria um garoto assim. Depois não tive mais contato com ele, não sei de seu paradeiro.
O Fim da Série
De 39 para 38 episódios
Quando assinamos contrato e depositamos o dinheiro no banco, foram promulgadas as Instruções 204 e 208,
pelo então presidente Jânio Quadros, que renunciaria logo depois.
Essas instruções taxavam em 100% os produtos importados, o que nos atingia diretamente, pois os
negativos eram importados.
Uma lata de negativo de mil pés que custava 10 mil cruzeiros, passou a custar 20 mil. A reação foi
em cadeia: sobe o negativo, o negativo de som, o positivo, o laboratório, etc.
No meu orçamento original eu havia jogado uma margem de 100% nos custos de produção, já prevendo
aumentos que pudessem acontecer ou mesmo gastos não previstos.
Mas com essas Instruções, entramos de cara com nosso orçamento no osso,
o que já começava anos preocupar.
A série tinha um custo elevado em relação às séries norte-americanas, que já vinham prontas, só necessitando
de dublagem, então nem se cogitava pedir aditivo no contrato, não era cabível.
Da metade para o final, começamos a enxugar os custos, reduzir equipe e tudo foi ficando mais difícil.
Nos três últimos episódios da série eu mesmo fiz a fotografia, câmera, produção e direção, etc., o dinheiro
já havia acabado.
Com 38 episódios prontos, eu e o Palácios fomos conversar com Gilberto Valtério, explicamos a situação e
nos autorizaram a parar por ali, ou seja, não fizemos o 39º episódio, que seria o correto para cumprir o contrato
integralmente.
O 38º e último episódio
chamou-se A
Extorsão e foi
totalmente filmado
no Guarujá, com Tony Campello e Lucy Meirelles.
Logo em seguida, procuramos o Valtério para propor um novo contrato
para realização de outros episódios,
mas este estava indo embora do Brasil, transferido para a Suíça.
Entregamos o novo orçamento para seu substituto, que analisou e disse:
Por esse preço a Nestlé fica dona de tudo, inclusive da marca Vigilante.
Logicamente não tive interesse de vender minha marca que é registrada.
Ficamos sabendo depois que a Nestlé patrocinara uma outra série chamada Os Bandeirantes, da
qual chegaram a ser feitos 12 episódios, mas a série foi cancelada pela direção geral da
Nestlé,sem ser exibida.
O motivo?
Ninguém sabe.
Após o encerramento do contrato, todas as cópias em 16 mm retornaram e eu as guardei.
A série O Vigilante Rodoviário voltou a ser exibida em 1967, ainda pela
Tupi e, em 1972, pela TV Globo, depois nunca mais.
Nesse espaço de tempo, eu e minha equipe da Procitel, a qual é proprietária da marca registrada
“O Vigilante Rodoviário”, trabalhávamos muito no sentido de recuperar e trazer novamente
a série para TV.
Infelizmente comentários maldosos foram publicados, nos quais diziam que: ora era por má vontade minha
e por ciúmes que eu não negociava a volta da série para TV ou para DVD, ora que eu e a equipe da Procitel
ficávamos acomodados e “nunca nos preocupamos em mantermos a memória da nossa obra pioneira viva”
e sendo assim, não mexíamos uma palha para trazer o Vigilante de volta.
Como já relatei, desde os tempos das filmagens da série, aprendi a conviver com comentários que visavam
denegrir não só o meu trabalho, como também o trabalho e empenho de toda minha equipe.
Inúmeras vezes fomos procurados por pessoas e empresas que se dispunham a unir-se a nós para recuperar
e telecinar o material, porém ao se depararem com o precário estado que a série se encontrava, desistiam
da empreitada.
Eu ficava muito chateado, pois não via solução à curto prazo para o problema e o tempo estava se tornando
meu maior inimigo.
Vale lembrar que este não era um problema enfrentado só por mim. Nem eu e nem nenhum outro produtor brasileiro
dispúnhamos de local adequado para acondicionar nossos filmes.
Os próprios laboratórios que utilizávamos para revelação de nosso material cinematográfico, é que gentilmente
acomodavam nossos filmes em espaços “ociosos” por assim dizer. Porém, eles também não dispunham
de condições climáticas adequadas para preservação do acetado, do celulóide.
Conseqüentemente, os laboratórios ficavam abarrotados e estes materiais eram retirados e acomodados
em nossos escritórios, nossas casas e etc. Com o tempo, acabavam por “avinagrar” ou seja, apodreciam.
Este era um problema crônico que todos nós produtores brasileiros enfrentávamos. Infelizmente, essa era
nossa realidade e sendo assim, ficávamos reféns das intempéries do tempo.
Já há alguns anos, graças a Cinemateca Brasileira, hoje temos um local com refrigeração controlada e adequada
para acondicionarmos nossas obras, igual ao disponível em países do primeiro mundo.
Hoje, não só o Vigilante como todas as minhas obras encontram-se depositadas na Cinemateca.
Em 2008, fui procurado pelo Canal Brasil (que pertence a Globosat Canais que é a maior programadora de
TV por assinatura da América Latina e pertence às Organizações Globo que também é proprietária da Rede Globo de Televisão),
eles se interessaram em unir-se a nós e após nossa parceria, finalmente consegui salvar minha série, embora Orquídea
Glacial exista no formato original e não pôde ser telecinado com risco de se perder para sempre, Os Cinco Valentes foi
telecinado mas a qualidade ficou abaixo do esperado e O Pagador tenha se deteriorado.
No dia 9 de março de 2009, O Vigilante Rodoviário voltou ao ar desta vez com os 35 episódios
recuperados, e sendo exibida pelo Canal Brasil todas as segundas as 20hs30, com reapresentação todas as
terças as 15hs30 e domingos as 11hs (net 66, tva 79 e sky 66).
Também em novembro de 2009, disponibilizei “O Vigilante Rodoviário” num box com os 35 episódios em DVD,
através da distribuidora de videos Spectra Nova.
O patrulheiro que virou O Vigilante Rodoviário
A inesperada mudança de nome
O nome inicial da série era O patrulheiro.
Fizemos o piloto, fomos vender a série nas agências com esse nome e fizemos ainda mais três episódios com
esse título. Lá pelo quarto episódio, antes de lançarmos a série, surgiu o seriado PatrulheirosToddy.
Fui então falar com o Valterio, pois tínhamos o registro e poderíamos impugnar o nome. Mas Valterio não queria brigar
com a concorrência então pediu que eu mudasse o nome do nosso seriado. Eu sai da Nestlé, que era na Rua
da Consolação, pensando em um nome, eu já estava com patrulheiro na cabeça e achavaque outro nome não ia funcionar.

Na esquina da Av. São Luis com a Consolação, lembrei do Gibi do Vingador,
então me ocorreu Vigilante, como a série se
passava na estrada, imediatamente já coloquei o Rodoviário na
frente, ficando O Vigilante rodoviário.
Fui para o estúdio e comuniquei à equipe que o nome ia mudar, para alterarem
as claquetes, eles não concordavam, já estavam acostumados com o Patrulheiro.
Em suma, foi mais difícil convencer minha equipe a aceitar o novo nome do que o Valterio da Nestlé.
Hoje falamos em Patrulheiro, fica difícil aceitar, mas no início se chamava assim.
Os quatro episódios prontos ficaram com as falas ainda como Patrulheiro Carlos, quem assistir, poderá reparar, nos
outros já mudamos o nome.
Quando estreou na televisão já era Vigilante.
A polícia rodoviária
A base de todo o trabalho
Devo muito a essa instituição. Todos me ajudaram desde o começo, não mediram esforços para a série dar certo.
O comando era de um major e de um capitão sub-comandante da Força Pública,
porque para usar armas era necessário que tivesse um policial junto.
A Polícia Rodoviária pertencia ao Departamento de Estradas de Rodagem e a guarda era dividida, metade com
os guardas rodoviários que eram civis e a outra metade da Força
Pública.
Havia 600 homens para todo o Estado de São Paulo, logicamente não se exigia tanto
policiamento como hoje, era outra época.
Em 1966, tudo passou a ser Policia Militar. O Guarda Rodoviário passou e ser Polícia Rodoviária.
Quem era terceiro sargento passou a ser primeiro, na migração eles eram promovidos.
A Polícia Rodoviária hoje é militar. O termo Inspetor era usado na época,
existia esse cargo, ele tinha certas atribuições com os comandantes que o guarda não tinha, então ele era um posto
acima do guarda.
Não existia sargento ou cabo, era GR de guarda, então tinha GR1, GR2, GR3, GR4, GR5 e depois Inspetor.
Essa era a hierarquia.
Por isso usei Inspetor na série. O nome Carlos foi coincidência com o Carlos Miranda. Quando fiz os testes,
meu personagem já era Carlos e coincidentemente (como já expliquei anteriormente) foi o Carlos quem
fez o papel.
O Vigilante chega ao cinema – 1963/66
Encerrado o contrato com a televisão, nos deparamos novamente com a velha falta de dinheiro.
Era o final da série e estávamos mais duros do que quando começamos, não tínhamos dinheiro para nada.
É interessante que tínhamos a série nas mãos, um produto altamente rentável, que
obtivera recordes de audiência e não tínhamos dinheiro.
Tínhamos prestígio, mas
dinheiro?
Nunca tivemos.
O dinheiro do contrato com a Nestlé, que não foi pouco, voou em nossas
mãos, consumido pelo alto custoda produção dos episódios.
No Águias por exemplo, o sucesso não aconteceu, mas ganhei dinheiro,
estava sozinho, houve mais Planejamento.
Durante a produção do Vigilante, paramos de fazer comerciais e de certa
forma, perdemos um mercado que havíamos conquistado, os tempos já
eram outros, dois anos haviam se passado.
Surgiu então a idéia de levar o Vigilante ao cinema, através da condensação
de cinco episódios, o que daria um filme de cem minutos. Não tínhamos recursos para fazer a ligação entre os
episódios, então refizemos somente a apresentação, mas os episódios foram simplesmente montados
na seqüência.
O primeiro filme se chamou Vigilante rodoviário e foi lançado no Cine Art-Palácio e
grande circuito, com muito sucesso. Nesse filme montamos os episódios O Diamante gran mogol,
A história do Lobo, Remédios falsificados, A repórter e Os romeiros, lembrando que o Diamante gran mogol havia sido o piloto
e os outros foram escolhidos aleatoriamente.
E assim fizemos outros tantos, que foram lançados em todo o Brasil.
Muita gente, que não havia visto na televisão, foi ver no cinema, outras tantas foram
rever, enfim, conseguimos ganhar um bom dinheiro com isso, mas ainda tínhamos muitas dívidas, oriundas da
produção da série.
De 1963 a 1966 concentrei minhas atividades na exibição do Vigilante no cinema,
produzindo comerciais de televisão e também dirigindo para várias produtoras; eu precisava sobreviver, tinha filhos
pequenos, não podia ficar parado.
*Trechos extraídos do Livro biográfico "Ary Fernandes - Sua Fascinante História", biografado pelo escritor Antonio Leão da Silva Neto"
e entrevista com Ary Fernandes em julho de 2010.
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